Rodrigo Duarte
A arte de tornar-se insignificante

Não se espera que, alguém que chegou à Presidência da República impulsionado por 57 milhões de votos, elegeu como deputados federais 52 desconhecidos, mostrou-se decisivo para a vitória dos atuais governadores do Rio e de São Paulo, seja tachado de insignificante. 

Porém, numa única semana, Bolsonaro conseguiu cometer tantos disparates, tendo se envolvido em tantas tolices, que terminou minúsculo diante de seu povo e irrisório do ponto de vista político.

Começou a semana defendendo o fim do distanciamento social. Atacou os que assim pensam, afirmando ser mais nocivo à sociedade a provável recessão econômica que a explosão pandêmica em si.

Ontem, porém, o próprio Presidente Trump -  a quem Bolsonaro crê imitar -  decretou que, nos Estados Unidos, o isolamento deverá se acirrar e será prolongado até, pelo menos, 30 de abril.

Outra? Seu Ministro da Saúde (Mandetta), não só se recusa a se alinhar ao esforço de ridicularizar a quarentena geral, como já veio a público, várias vezes, defender o exato oposto, ou seja, a necessidade de mantê-lo, até que a ciência ofereça solução a médio prazo. Tal ministro, que vem sendo saudado como “estadista”, inclusive, censurou as caminhadas públicas e os apertos de mão distribuídos pelo inconsequente chefe.

Enquanto isso, o comandante do Exército, General de 4 Estrelas, Edson Leal Pujol, falando em nome Alta Cúpula Militar, posicionou-se no youtube a favor da política de distanciamento social. Aproveitou, também, para dizer a milhões de brasileiros que as Forças Armadas Brasileiras jamais trairão os princípios democráticos, nem se prestarão aos interesses passageiros dos governantes. 

Os presidentes da Câmara e do Senado, reunidos com os líderes de todos os partidos políticos (inclusive os de “esquerda”) e apoiados, até, pelo ministros do Supremo Tribunal Federal, têm se reunido diariamente, na construção de soluções práticas para a recessão econômica que deverá ocorrer.  

Nessas reuniões – sem a presença de qualquer representante de Bolsonaro - discutem-se temas de altíssimo relevo; seja o gigantesco “pacote” de salvamento para as grandes e médias empresas (com decisiva atuação do BNDES), seja a concessão de empréstimos a juros baixíssimos para as pequenas empresas. Fala-se, ainda, na distribuição (a fundo perdido) de recursos aos mais pobres, ainda que se tenha de cortar pela metade os salários dos servidores públicos federais.

O ministro Paulo Guedes é mantido à margem disso tudo. Nenhum grande líder político acredita que o outrora “sabe-tudo-de-economia” tenha qualquer prestígio com o chefe, considerado um homem colérico e anacrônico.
O povo não se diverte mais com o “circo” proporcionado pelo Presidente... 

Ninguém suporta mais o clima de tensão, de confronto, permanente. Ninguém entende porque o Presidente da República se descontrola o tempo todo, se permitindo cair em todas as provocações que lhe fazem. E, mesmo quando não é provocado, seu estado de IRA é visível.
Ninguém mais aguenta ver o presidente culpando Lula... afinal,  todos sabem que esse não passa de “cachorro morto” da política...

Chegam informações dando conta de que quase todos os governadores desistiram de dialogar com o iracundo presidente. Alguns, inclusive, sequer lhe atendem ao telefone, tamanha é a sua insignificância.

Bolsonaro, por razões insondáveis, esforça-se em se tornar um personagem desimportante, tal qual o era quando, por 28 anos, atuou como deputado federal.

Para muitos, até o fim de seu mandato será um peso para o seu povo. De perda em perda, de desgaste em desgaste, transformar-se-á, ao final, num personagem a ser esquecido, como uma epidemia que vem e passa. 
Que deixa suas vítimas, mas um dia passa...


Rodrigo Duarte, Advogado e Iconoclasta
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